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foi com alguma satisfação que pus roupas ali na mochila, agora, e mais outras apenas pra enrolar o HD cheio de músicas e tentar protejê-lo do incessante trepidar das nossas estradas. porque nunca pensei que um dia sentiria saudades de um lugar onde não tenho ninguém pra sentir falta. mas sinto. e apesar do oscilar aperiódico entre cidades (ou, antes, entre estados), são quase três anos morando mais ou menos no mesmo local, sozinho e com o meu silêncio; e, assim sendo, voltar para a família por longos períodos, por melhor que seja, torna-se gradualmente sufocante. e não falo por mal: o silêncio faz falta; e perdê-lo é como um retrocesso. soa errado.

essa vontade de voltar não está apenas no reencontro da solidão do lar, mas também no caos da rua ao entardecer e na noite que vai lutando contra os carros e contra todos, que sempre os vence, derruba, silencia e acalma até que eu consiga ouvir o som dos meus próprios passos a correr pelas calçadas e ecoar por todo o quarteirão, com a pressa desmedida de chegar a lugar nenhum. é o pequeno prazer de sentar numa praça vazia enquanto todos os prédios dormem. e rir. por nada. e depois voltar.

e agora vou ali, enfim, cruzar o trópico.

um bom termômetro da sociedade brasileira? os TORPEDOS que passam no rodapé do programa do Datena.

acho que vi todos os horários eleitorais. vi alguns de outras cidades, vi uns debates, li os "jornais" feitos pelos candidatos - e enfiados sob a minha porta - e impressos em papel de boa qualidade, coloridos e cheios de sorrisos.

vi aquela HORDA de candidatos a vereador (187, aqui) expostos algo estroboscopicamente a repetir, nos seus poucos segundos, o mantra "saúde, transporte e educação". vi também as garotas gordinhas no canto da tela a gesticular esse trinômio por trinta longos minutos, possibilitando aos surdos a sensação de asco que estamos acostumados a experimentar.

vi também o sujeito que organizou uns bons cineclubes e que agora resolveu, não sei bem porquê, ser vereador. e um outro que estudava na minha escola no ensino fundamental, um ano mais novo que eu, aparecer como candidato a vice-prefeito pelo PSTU.

ah! vi até a candidata bonita (sim, no singular; e sendo um tanto generoso) que saiu em 2004 pelo PRONA, neste ano pelo PRTB/PHS e, aqui, pelo NSFW - no qual está muito mais a vontade, diga-se. praticamente uma pequena celebridade no município (& moar).

vi tudo.

e é por isso que eu não vou votar.

...

em cidades pequenas, os contrastes da política são evidenciados de tal modo que ela acaba se transformando em sua própria caricatura.

nas cidades maiores & capitais, no entanto, você até se convence de que pode mudar alguma coisa.

...

mas vamos lá:

1) se todos os 187 vereadores que apareceram diariamente no meu televisor durante as últimas semanas prometeram exatamente a mesma coisa, tanto faz eu votar neste ou aquele. são 187 pessoas competentes e honestas que cumprirão com suas promessas se eleitos.

tanto faz.

2) querem, em CINCO SEGUNDOS diários, ganhar minha confiança, simpatia e representatividade.

try hard.

3) as coisas não vão mudar. coloque o seu vereador favorito na câmara e nada vai mudar. "ah, mas se todo mundo escolher um político honesto e de confiança..." TÁ. você consegue listar CINCO nomes?

não consegue.

...

não menciono os candidatos a prefeito porque nem vale a pena. acredite.

...

é claro que eu poderia votar NULO, que é uma forma de dizer que não estou satisfeito com nenhuma das opções apresentadas.

mas, em vez disso, também posso expressar meu descontentamento com o fato de não ter outra escolha senão a de anular meu voto. ou ainda de dizer que não quero participar de algo que não vai fazer diferença nenhuma.

e todo mundo sabe que não vai. daqui a quatro anos é "saúde, transporte e educação" de novo. e de novo. como já tem sido há tempos e como sempre foi.

...

mas no Brasil você é obrigado a votar. ficar em casa no dia da eleição vai te resultar em uma multa.

em 2006 eu não votei pra presidente e também não fui justificar minha ausência. umas semanas ou meses depois tive que ir regularizar o título de eleitor e, se a memória não me trai, a obscena quantia que tive de desembolsar para não ter maiores problemas foi algo da ordem de UM REAL.

um real e pouco porque foram dois turnos - que contam como duas eleições. senão é metade disso. não fui pesquisar pra confirmar este valor, mas dadas as fantásticas opções de políticos, é um preço baixo para ter o direito de não escolher nenhum deles.

e muito embora o voto nulo seja gratuito, há a indefectível fila que eu não tenho a menor vontade de enfrentar.

prefiro ficar em casa e acertar as contas depois.

(repito que não me lembro exatamente do valor e nem se há um prazo e etc. pesquise no domingo, quando você estiver em casa sem nada pra fazer.)

...

aliás,

meu argumento segue por aí.

...

um título mais correto para este texto seria algo como "não voto enquanto...", mas aí eu precisaria de outro texto, algo utópico, pra completar essa frase, querendo dizer que está tudo errado e que, se quisermos mudar alguma coisa, temos de começar pelas pessoas.

qualquer coisa assim.

...

UPDATE: como este post gerou perguntas que eu não soube responder com certeza, encontrei algumas das respostas para: justificativa do voto, justificativa de voto e multas & um FAQ. agora sim, pode ficar em casa tranqüilo.

e o valor da multa pela não-justificativa do voto é arbitrário e essencialmente simbólico. mais explicações aí nos links acima.

segundo Dylan, no celeiro beat

em 61, Dylan se mandou do Minnesota para tentar a vida em bares e clubes da noite novaiorquina, dividindo o microfone com uma porção de outros artistas e poetas com ambições similares.

suas necessidades: arranjar uns trocados com as apresentações para poder se manter na cidade e/ou conseguir algum contato pra gravar ou se apresentar por aí.

o problema: enquanto dedilhava algumas canções de Guthrie e assoprava a gaita num dos únicos neck racks da região (artigo raro), não tinha como arrecadar as moedas do público. ganhava menos do que poderia.

a solução: depois de várias noites nessa rotina, descobriu que poderia aumentar a arrecadação se uma garota bonita passasse reunindo trocados num chapéu enquanto ele tocava. e funcionava: conseguia, assim, arrecadar praticamente o dobro.

o problema: tinha que dividir essa grana com ela.


segundo qualquer um de nós, numa segunda-feira nublada, às 8:15 AM
(ou: woke up this morning, found my baby gone)

realmente não importa se a garota está contigo desde o dia anterior, há pouco mais de três semanas ou se ela é, vá lá, sua esposa: encontrar-se abandonado numa segunda-feira de manhã é uma punhalada que só elas sabem dar.

dói, mas pelo menos serve pra justificar os altos gastos com uísque.


segundo Godard,

"tudo que você precisa para um filme é uma arma e uma garota."

e acrescento que se a garota for (como) a Anna Karina, você não precisa da arma.

nem de um eventual roteiro.


segundo Tom, indo para Jersey/Guarulhos

a garota está na cidade vizinha. então, sem tempo pro bagulho ou pras putas da oitava avenida, atravessa NY/SP à noite: quer logo chama-la, abraçá-la, beijá-la e shalalá-la.

você pode até ignorar padrões,
mas é preciso ter COLHÕES
pra meter um verso a mais:

foda-se.

não lembro da primeira vez que ouvi Kind of Blue, mas desconfio que tenha sido numa tarde qualquer, possivelmente quente, navegando por aí com o disco como mero plano de fundo. começou, terminou e passou batido. um pouco triste.

lembro-me, no entanto, da primeira vez que prestei a devida atenção naquelas 5 faixas, com o intuito de tentar compreender a fama toda. e aí sim pude assinar embaixo das resenhas dos first-timers deslumbrados e concordar que aquilo ali era, de fato, uma obra-prima.

mas meu primeiro contato com o mestre não foi aí. um bom tempo antes, sem nem saber direito o que era jazz, fui logo de Bitches Brew e não entendi absolutamente nada. tinha lido aqui e ali sobre o avantajado CALIBRE da obra, mas acabei achando o trompete estridente demais e larguei o álbum duplo na metade do primeiro disco. bah.

amigo do feed, há um player aqui.

só alguns meses depois, querendo me livrar das coisas que eu não escutava, é que fui dar mais uma chance às PUTAS, antes de mandá-las pra bem longe como pretendia. e, porra, saquei que eram mesmo lindas (ainda estou falando do disco, sim). não que eu tenha entendido muita coisa, e ainda estou longe de entender tudo, mas pegou-me de jeito e foi bom.

depois disso foram várias madrugadas com In a Silent Way, em especial aquele começo sublime de SHHH... e o retorno perfeito pra releitura no último terço da música. colocava pra tocar alto e ficava ali curtindo, sem fazer mais nada. foi a partir daí que passei a chamá-lo de mestre. e 'bora escutar de novo e caçar novos discos e tocá-los várias vezes.

digo tudo isso porque hoje, dia 28, completam-se 17 anos da morte de Miles Davis e achei por certo passar o dia inteiro escutando seus discos e só eles. uma forma singela de gratidão.

1. clássico:

mr. tambourine man

2. à paulistana:

do you love me?

bati o olho no calendário agora e encontrei o nome desses dois.

a ÚNICA coisa que meu cérebro consegue associar com a dupla é essa música aqui.

e mais nada.

posto que:

1.

2.

2.1


When I grow up I want to be,
One of the harvesters of the sea.
I think before my days are done,
I want to be a fisherman

numa virtual empolgação discreta com o grandessíssimo feriado gaúcho, esperei o fim dia para tocar as recomendações de el líder FARRAPO, não só pela curiosidade e data propícia, mas principalmente para ver como reagiria minha metade genético-gaudéria não-praticante. e a empolgação veio a trote, sim, de tal modo que ainda estou a ouvir o duplo do Luiz Marenco 'Ao Vivo' com ânimos desmedidos & satisfação principiada ali com Jayme Caetano Braun a declamar intensamente. afirmo, pois, que esta minha parcela gaúcha, até então adormecida, se eriça como eu jamais suspeitaria, a ponto de querer vasculhar a estante por alguns dos discos do meu pai.

há, também, um ímpeto andarilho já mais exagerado que quer projetar-me aos pampas pra ver e ouvir tais coisas que, apesar de minhas diversas idas à Porto & região num passado mais ou menos distante, desconheço por completo.

e me surpreende um bocado -- pela naturalidade -- que neste embalo sulista eu também queira pôr as mãos num SOMBRERO e destilar um portunhol safado com a garrafa vinho que me acompanha agora. assim, do nada. pois tal baque etílico-tradicionalista, a revirar heranças que talvez eu nem possua, parece tamanho que a frase-título do meu relato flutua com agradável sonoridade, tornando simplesmente certa a harmonia bilíngüe do pedido que faço cheio de sinceridade.

dá-me um cigarro, sim?

ou um post proto-didático onde expresso meu gosto por coisas aleatórias, experimentalismos, Burroughs & etc.

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cut-ups são um negócio divertido, pero mui trabalhosos. a diversão está justamente na essência: recortar & colar. a leitura do nonsense total, resultante do processo, também costuma ser engraçada dependendo do método empregado.

o problema é o trabalho braçal necessário. quero dizer, em geral são dois trabalhos: 1º) ler a colagem e escrever o resultado, arrumando palavras pela metade e etc; e 2º) reescrever várias vezes o texto obtido até que ele tome a forma desejada (ou algo assim).

e há um passo (3), opcional, que é recortar & colar esse texto reescrito, mas aí você tem que repetir o passo (2) e vai te dar, no mínimo, o dobro de trabalho.

mas o momento crucial é justamente o primeiro: ler a colagem sem sentido e reescrevê-la de forma legível, sem questionamentos sobre forma ou coesão. é tão somente a transcrição da IMPRESSÃO causada pelo encadeamento de recortes. não tente arrumar muito.

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existem vários jeitos de fazer um cut-up. os principais: recortar cada palavra, linha, parágrafo ou quadrante do texto; daí embaralhar e juntar tudo de novo. simples.

porém, na maioria dos casos, o resultado da colagem por palavras não compensa o esforço de fazê-lo. é comum você sair com uma seqüência de artigos e pronomes numa mesma linha e isso te obriga a pensar mais que o NECESSÁRIO na hora da leitura.

embaralhar todas as linhas de um texto costuma ser mais interessante. geralmente vale a tentativa.

fazer recortes por parágrafos só vale a pena se eles forem curtinhos ou se o texto ajudar, senão o resultado será apenas uma versão mais confusa do original.

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devo dizer que o primeiro cut-up que fiz foi uns anos atrás, junto de mais dois amigos, para gerar dois monólogos para um curta-metragem que filmamos. estávamos no colegial e eu sugeri, influenciado por uma menção de Tristan Tzara na aula de literatura, que recortássemos o APOCALIPSE para criar nossos textos.

a bíblia POCKET, única que encontrei, era da minha irmã -- ganhara na escola. estranhou o pedido: "mas pra que VOCÊ quer a bíblia?" "vou recortar umas partes," eu disse. ela negou. argumentei: "você nem vai ler isso aí. e vai ser só o apocalipse."

como as letrinhas eram muito pequenas e o texto divido em duas colunas por página, recortamos bloquinhos de 3 linhas e jogamos tudo num saco plástico. após um ligeiro chacoalhar, fomos colando os papéis de qualquer jeito numa folha em branco. aí bastou uma leitura rápida em voz alta, enquanto o outro digitava o que era dito, e pronto. ficou lindo.

o curta, hoje, me dá uma certa vergonha, mas os dois momentos dos monólogos profetico-dadaístas são fantásticos.

ah, e o filme finda com a pequena bíblia EM CHAMAS ao som de um samba.

minha irmã acabou gostando.

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mas voltemos aos métodos de cortar -- e talvez alguém se pergunte se é daí que vem a menção à navalha; ao que eu respondo que não, não é.

o método do quadrante é o mais profícuo, mais simples e mais rápido. basta dobrar a folha no meio, depois dobrar de novo, recortar na dobra e embaralhar. a sacada aqui é que as frases serão cortadas na metade e, ao juntar com outras metades, elas ganham um sentido novo sem perder sua estrutura. ou seja, o resultado passa a ser um punhado de frases mais ou menos coesas, fáceis de ler, mas bem diferentes do original.

William Burroughs costumava utilizar este método e no vídeo abaixo há uma breve demonstração do processo.

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em verdade, há infinitas maneiras de retalhar um texto e juntar seus pedaços. ou colar fragmentos de vários textos diferentes. ou aplicar alguns desses métodos em série.

é importante deixar claro que a colagem em seu estado bruto é quase sempre um LIXO por causa da falta de nexo. e não há, de fato, um processo criativo no ato de recortar, colar e transcrever: é trabalho braçal puro e simples, com uma grande dose de ACASO e uma pitada de subjetividade na hora da leitura.

o atrativo dessas técnicas, além -- para alguns -- da diversão meio infantil do trabalho manual, é utilizar os cut-ups como base, como fonte de INSPIRAÇÃO, pois a colagem, aqui, não passa de um cenário possível, de uma idéia (ou várias) que muito provavelmente você não teria ou da sugestão de situações e cenas que fogem completamente dos padrões.

quando não conseguir escrever ou quiser apenas EXPERIMENTAR, reúna seus papéis, recorte & cole. pode não te ajudar em nada, mas pode te dar novas idéias.

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e você não precisa, necessariamente, de papel, tesoura e cola. é fácil de encontrar por aí alguns simuladores desses processos, onde você cola o texto e o computador faz o resto pra você, como o cut-up machine, por exemplo. este site, aliás, tem uma infinidade dessas coisinhas dessa pra brincar.

tenho aqui, também, uns vários programinhas cheios de bugs que escrevi pra processar textos -- em especial um que emula exatamente o método do vídeo -- e que me são úteis de vez em quando.

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então, um resumo rápido:

  1. quando estiver sem idéias, recorte, cole & leia;
  2. as colagens em si são uma bosta, você tem que reescrever muito; e
  3. apesar de trabalhoso, pode te dar boas idéias (ou não).

e há mais aqui e MUITO mais aqui.

Alice in Wonderland (1903) & White Rabbit (1967)

não sou um grande fã de Jefferson Airplane, mas guardo com certo apreço uma cópia do Surrealistic Pillow junto da minha coleção. e por três bons motivos: 1. Somebody to Love, 2. White Rabbit (aí do vídeo) e 3. a sensacional Grace Slick. não nesta ordem.

sobre as duas músicas não é preciso dizer muito: fizeram o aeroplano decolar. o travesseiro é o primeiro disco com a Grace na banda e é também o mais interessante e inspirado -- posso até ter dado azar, mas todos os outros que escutei são meio tediosos.

mas -- suspiro -- Grace Slick. até Hunter Thompson, dizem, não escondia seu fetiche pela moça e, de fato, não era pra menos. é aquela combinação extremamente feliz de voz bonita e rosto bonito. e, no caso dela, com vários acréscimos intelectuais, por assim dizer.

Grace Slick

e digo que passei a respeitá-la ainda mais depois que li sobre sua tentativa de misturar LSD no chá do presidente Nixon quando foi convidada para ir à casa branca. não deu certo, claro. foi barrada na entrada.

mas o que vale é a intenção.

tenho lido Whitman, sabe o que ele diz, cheer up slaves, and horrify foreign despots, ele quer dizer que a atitude para o BARDO, o bardo zen-lunático dos antigos caminhos do deserto, vê a coisa toda como um mundo cheio de andarilhos de mochilas nas costas, VAGABUNDOS DO DARMA que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de tv, carros, pelo menos os carros novos e chiques, certos óleos de cabelo e desorante e bobagens em geral que a gente acaba vendo no LIXO depois de uma semana, todos eles aprisionados em um sistema de trabalho, produção, consumo, trabalho, produção, consumo, tenho a visão de uma grande revolução de mochilas, milhares ou até mesmo milhões de jovens americanos vagando por aí com mochilas nas costas, subindo montanhas pra rezar, fazendo as crianças rirem e deixando os velhos contentes, deixando meninas alegres e moças AINDA MAIS ALEGRES, todos esses zen-lunáticos que ficam aí escrevendo poemas que aparecem na cabeça deles sem razão nenhuma e também por serem gentis e também por atos estranhos inesperados vivem proporcionando visões de LIBERDADE para todo mundo e todas as criaturas vivas.

~japhy ryder

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daí amargo a constatação de que estou trancado em casa há pelo menos uns dois pares de meses e isso me angustia um tanto. nas semanas seguintes a coisa não será diferente, mas aos poucos planejo, primitiva e despreocupadamente, uma ligeira mochilada pelo estado que anda a me abrigar e vou traçando rotas que SERPENTEIAM por diversas direções, pois o mapa que olhei dia desses me informa que tudo o que conheço não passa de um ponto -- é, em verdade, um pontinho avantajado, com destaque, mas apenas um ponto e nada mais.

a carteira, por sua vez, põe a língua pra fora e diz que não agüenta essa viagem toda. não é pra menos. e é aí que me detenho nos traçados pra fazer contas e considerar deslocamentos alternativos, como trotadas no acostamento e polegar pro alto, intermunicipais cata-corno e qualquer coisa assim. sei que serão belas noites em camas velhas, mal-cheirosas e barulhentas e preço simbólico como sempre há por aí, desjejum num balcão de padaria pra 'güentar o dia todo de solidão andarilha e sol e ladeiras e estrada e gente e aquela porção de detalhes que você vai levando na mochila junto com paisagens & situações CERTAS, coisas que passam, moças bonitas, botecos quaisquer quando a noite cai e músicas erradas (nem sempre) que despontam aqui e ali pra embalar e completar essa longa e memorável DANÇA pelo mapa.

mas.

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porque te digo que solidão é algo que faz falta. e mais do que de fato conhecer pontos e retas, quero é sentir o vento na cara e saber que não tenho ninguém com quem contar num raio cada vez maior.

garanto que a sensação é das melhores.

olho, então, pro mapa: QUAIS serão os pontos? não me importa. chegar é o momento menos interessante: breve e limitado, termina em si mesmo e joga todo o resto pras memórias.

não é triste? é.

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por outro lado, é necessário jogar as coisas num canto e parar, às vezes. e o que é esse processo, esse deslocamento rápido e louco, senão um encadeamento de partidas e chegadas?

o segredo é o tempo, o timming, a hora certa de juntar suas coisas e se mandar de novo. demorar-se quando necessário e seguir veloz sempre que puder.

continuar escalando no topo da montanha, pois.

e se me demoro numa espécie de privação auto-imposta, na já citada angústia de ver o mundo por trás duma janela, num roteiro cíclico entre cômodos e lugares "logo ali", dias longos e semanas rápidas e meses longos, é porque, acho -- já abusando da metáfora, que a montanha ainda está longe.

...

mas enquanto outras coisas ainda me seguram por aqui, aguardo.